
Parecia um legítimo formigueiro. Só que não de formigas, mas de pessoas. Algumas caminhavam a passos largos pelos corredores, outras iam tão vagarosamente que impediam o fluxo contínuo de gente. Aqui e ali, mais algumas ficavam em pé no meio do caminho, conversando pelo celular, ou reparando cuidadosamente numa determinada vitrine. Quase todas, inclusive eu, carregavam sacolas de todos os tipos. Mas a diferença das formigas, ninguém estava se preparando para uma eventual escassez, ou um rigoroso inverno.
Dentro das lojas abarrotadas de gente, as filas não paravam de avançar na frente dos caixas que, em conjunto, pareciam uma estranha orquestra de monitores, gavetas e botões, movidos a dinheiro. Por todos os lados, era possível ouvir como uma espécie de trilha sonora, com diversas músicas de sininhos e melodias conhecidas. A cada grande janela de vidro, mais um conjunto deslumbrante de objetos acompanhados de enfeites e numerosas luzes.
Apesar do ambiente frenético, nem todo semblante no qual reparei parecia feliz. Em vários rostos, era muito mais fácil distinguir angústia e ansiedade do que qualquer vestígio de prazer ou satisfação. Completamente imersos nas compras, eu e o meu acompanhante seguimos o fluxo natural de gente durante várias horas. Percorremos todos os cantos do lugar numerosas vezes, e não durou pouco para eu também entrar numa espécie de clima geral de frustração, que parecia ameaçar dissimuladamente a todos os que estavam naquele estranho formigueiro.
Um empurrão aqui e ali, a cabeça cheia de dúvidas e de repente... droga! – eu falei. São tantos presentes! Acho que não tenho dinheiro para contemplar a todos. Com um grande esforço, tentei não pensar no assunto, mas estava visivelmente chateada e o meu companheiro tentou me acalmar. “Não fica assim não”, ele disse. “Eu ajudo você”. Um pouco relutante, aceitei o apoio e seguimos em frente.
Não estávamos nem perto do fim e a minha cabeça já doía de fazer tantas contas a respeito de parcelas e juros. E isso sem contar os constantes dilemas de decidir sobre se este ou aquele outro presente era mais adequado para fulana ou cicrano. Sempre gostei de dar presentes, e bons presentes. Porém, nunca fui boa decidindo rápido sobre o que presentear. Por isso, não foi de se estranhar que ainda demorássemos mais um bom tempo entrando em uma loja e outra.
Finalmente, já perto da escada rolante, o meu noivo me disse: “pronto, dever cumprido”. Com um leve aceno da cabeça concordei, e instantaneamente uma enxurrada de pensamentos invadiu a minha mente. Comecei a me perguntar o sentido daquilo tudo. Aquela palavra “dever” me tocou. Acho que nunca a tinha associado conscientemente à época de Natal. Rapidamente me recompus e continuei andando. Depois de alguns minutos, lembrei: droga!, faltou o presente da minha sogra!.
(Crônica escrita para a disciplina de Técnica de Redação em Jornalismo IV, ufa!, já estou quase terminando! uhuuu!!! ;) ...)